terça-feira, 26 de abril de 2011

Selfish

Ás vezes eu só queria não ser eu por algumas semanas.
Preciso fugir, mergulhar em algum riacho e por algum tempo esquecer que existe um mundo além do meu infinito particular. Sou só eu e eu.
Não existe faculdade, família, amigos, problemas. Apenas eu, um Adão, ou um ser autótrofo.

Hoje estou cansado.
Tchau.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um dia atípico qualquer.

Era manhã de um sábado de junho.
Manhã chuvosa e fria, de um sábado de junino.
Num bar de esquina haviam algumas mesas e cadeiras de madeira. Vazias. Alguns garçons passavam um pano laranja com algo liquido tentando mantê-las limpas, e para evitar que acumulasse as muitas folhas que caiam da grande árvore que havia na calçada.
Em um lugar na calçada do bar, próximo a esquina, havia um homem, um jornal em suas mãos, sua mesa, um copo com resto de café. Lia o seu jornal pacientemente. Suas pernas estavam cruzadas. A perna direita sobre a perna esquerda. Sua calça era social, e a blusa era de moleton.
Ventava muito e a chuva começara a ficar mais intensa, apesar de suas gotas finas a chuva era intensa.
Poucos carros passavam naquela rua que outrora costumava ser movimentada.
A cidade estava quieta. Era um dia atípico. Não havia motivos para ser, mas era.
De repente o homem abaixa o jornal, acende o seu câncer, e traga aquela fumaça para dentro de suas entranhas. Guarda seu isqueiro. Solta calmamente a fumaça que se dissipa em questão de segundos.
O cigarro entre os dedos da mão esquerda enquanto dobrava o jornal e o punha em cima da mesa.
Outro trago.
Ele observa o garçom, seu empenho em manter o ambiente limpo, contra a natureza e seus ventos de folhas.
As folhas caiam com uma delicadeza sobre as mesas e depois vinham ao chão devido aos ventos.
Ele fixou-se naquilo. No cair das folhas. Das úmidas folhas.

Sociedade

Eu me contradigo.
Tu se contradizes.
Eles se contradizem.
E assim Nós vivemos.

Eis, então, a sociedade.

Vivendo.

Viver é interagir.

I.F.O

sábado, 12 de março de 2011

Saudades..

Hoje sou a saudade. Sou a vontade de um beijo não dado. O aconchego de um abraço perdido. Sou o calor do nosso sexo. Sou a minha vontade e a sua recusa. Sou o amor que você deixou cair do bolso ao subir na calçada. Sou as milhares de lagrimas caídas no chão, o choro abafado, o grito calado que eu soltei. Em vão. Você nunca escutou e nunca escutaria. Não percebeu a súplica nos meus olhos molhados e carentes. Nunca sentiu o perdão no meu toque. Você não sentiu o amor nos meus beijos. Ou sentiu e não deu valor.

Não farei perguntas retóricas, nessa funçao já basta a vida.

Hoje sou a saudade, ontem fui o choro. E amanha? Amanhã serei a felicidade vazia. O sorriso seco. Seco.
Mais seco vou ficando. Até aceitar que depois do verão, vem o outono. E que depois de um amor vem outro. É simples, mas eu nunca gostei do simples.

Ces't la vie. 

I F O
  P
 M

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Avant garde.

Vanguarda. O primeiro.
Hoje é meu primeiro post. Pretendo começar todos os post com algumas críticas, citações, acontecimento do dia, ou o que mais vier na cabeça e em seguida algo produzido por mim.
Acabo de escrever essa pérola. Não reli. Gosto do cru, do nu, do não lapidado.
Espero que marque.


"Uma prateleira, alguns ketchups, molhos de tomate, um vácuo, um movimento, duas pessoas, um olhar. Fitam-se, e fixam-se. De um lado via se um olhar de olhos claros com um castanho que se assemelhava às folhas secas caídas nas ruas de outono, com uma expressão profunda, e ao mesmo tempo tímida, no outro lado um olhar assustado, olhos negros que denotavam subjetivamente uma ingenuidade que instigava um estranho desejo, um mistério, um ar diferente. Passam-se exatos 47 segundos e os olhos não piscam, fitam-se através daquela prateleira de supermercado suja, quase enferrujada, recheadas de produtos avermelhados.
-Com licença, moço, você pode pegar aquele de tampinha amarela pra mim? – A fixação então é interrompida pela voz de uma criança de 10 anos que tentava alcançar o ketchup do terceiro andar de cima pra baixo da prateleira. O rapaz, alto, de cabelos negros então desvencilha sua mente e olhar daqueles olhos na qual se perdera por alguns instantes e diz: “Como?”
-Eu quero aquele ketchup, pega pra mim? –Disse mais uma vez, a simpática menina com uma fita lilás no cabelo e um vestido laranja com preto desbotado, surrado, vestes antigas.
-Certamente. –Disse o rapaz, pegando rapidamente o ketchup e voltando o olhar por entre as prateleiras para ver novamente aqueles olhos que despertaram uma sensação que nunca sentira antes. Uma sensação que havia feito se sentir como se estivesse anestesiado, pois não conseguira sentir suas extremidades, seus braços e suas pernas não existiam. Era ele, seus olhos, sua boca seca com saliva branca, seu estomago com um cubo  de gelo imenso e os olhos do outro lado da prateleira.
Quem era aquela pessoa!? De quem seriam aqueles olhos?!
Aqueles olhos já não estavam mais lá. Partira, sem mais nem menos. E então ficara um vazio em seu lugar, um vazio que era palpável. Um vazio que era cheio. Cheio de nadas. Cheio de interesses. Sentimento esse que só sentira uma vez na vida, quando seu pai, Estivelsson, o fizera esperar três horas perto do carro no estacionamento de um supermercado no subúrbio de Boa Vista, em Roraima, enquanto o pai transava com uma prostituta negra que cheirava a óleo de cozinha, a qual dera carona em uma cidade a 184km de onde estavam, quando estavam por uma viagem à América Central. Era um vazio sem um por que. Apesar da prostituta feder, ele sentia atraído pela prostituta negra, aqueles cabelos ouriçados, brilhosos, um cheiro de perfume doce, barato. O sexo entre o pai do rapaz, e a prostituta foi a primeira perda da sua vida. Ele perdera então seu quase amor para o seu pai. A prostituta nunca fora dele, porém, nas horas em que estavam juntos no Jipe a caminho da capital, era como se ela fosse dele. Sua propriedade, pois ela o acarinhava. Tinha seus quinze anos na época, porém devido ao seu raquitismo, parecia ter dez. A prostituta se encantara com aqueles cabelos negros e lisos do adolescente. Ele percebia isso. Foi assim que surgiu então, seu primeiro amor que logo fora destruído ao escutar os gemidos que pareciam de porco, ao se aproximar de um banheiro de madeira que tinha atrás do supermercado da periferia de Boa Vista. E logo o amor fora tomado pelo vazio.
Vazio que agora sentia por mais uma pessoa estranha. Por um olhar. Ele nem sabia se a pessoa tinha chulé. Mas sentira, no intimo do seu ser, que havia um sentimento diferente palpitando dentro da garganta. Tomara sua garganta como caroço de manga entalado. Doía, latejava, sentia a pulsação da sua carótida, era perceptível a dois metros de distancia.
Então ele se deu conta que havia apenas pegado o ketchup e segurava, enquanto a jovem criança aguardava com as roupas de aparência surrada.
-Toma, linda. –Disse ele estendendo a mão com o ketchup para a criança.
Olhou mais uma vez para a prateleira e o vazio preenchia o lugar daqueles lindos olhos. Ele acabara de trocar, inconscientemente, e por pouco tempo, seu grande amor por um ketchup. Se ele soubesse, que naqueles olhos se escondia seu único amor, ele jamais teria pegado o ketchup. Teria fitado os olhos até aparecer o primeiro sorriso. De repente, ele se tocara da idiotice que acabara de fazer. Se sentiu num daqueles programas em que te colocam numa cabine com fone de ouvido e musica alta, e ficam por fora te fazendo perguntas inaudíveis, e mesmo sendo assim, você precisa responder sim ou não pra perguntas do tipo: você aceita trocar dois bilhões de euros por uma bala chita vomitada?! E o trouxa responde veementemente: SIM!
Puta merda, lá se foi o seu amor e ele ficou com um ketchup no seu campo de vista. Pelo menos se lembrou que ketchup picante era horrível, e que prometera a si mesmo que da próxima vez, compraria tradicional ou barbecue, visto que ele tinha hemorróidas, era pequena, imperceptível a olho nu, na verdade nem ele sabia que tinha, estava começando a relacionar o fato de ingerir pimenta com um prurido árduo em sua região anal. Ele escolheu um ketchup, perdeu um amor, e voltou para sua casa cantando frenética e repetidamente Stayin’ Alive dos Bee Gees. Três semanas depois ele morreu de parada cardíaca. Estava em uma agencia bancária durante um assalto, e um assaltante encapuzado com armas em punho apontou um revolver para sua cabeça. Com muito medo, o rapaz se negava a encarar o bandido. Começa o tiroteio. Policiais na rua, bandidos e reféns no banco. De repente, o rapaz, olha de relance para o rosto do bandido: aqueles olhos! Pá!
Os olhos se fecham. Sangue escorre pelo nariz, ele cai lentamente ao chão. Pá. O rapaz sente algo queimar a sua coxa, no trígono femural. A bala atingira sua artéria femural. Ele sangrou até morrer."